O que sobra do profissional na era da IA
A inteligência artificial está engolindo tarefas que antes ocupavam boa parte do nosso dia a dia. A pergunta importante não é se ela vai substituir o humano, mas sim o que vai sobrar para o humano quando ela tiver assumido essas funções que nos ocupam.
Existe uma forma de usar inteligência artificial que devolve o profissional para o que somente ele pode fazer, e essa forma é minoria do que se vê por aí. Ela executa as tarefas repetitivas, e libera tempo e atenção para aquilo que máquina nenhuma faz direito: pensar, decidir em situações novas, conduzir conversas difíceis, cuidar de quem está na frente da gente.
A maioria das aplicações de IA na prática profissional hoje pertence a duas categorias mais barulhentas e ao meu ver menos úteis. Vamos por elas primeiro.
As duas armadilhas
A primeira armadilha é usar IA pelo uso da IA, e ela tem três sintomas fáceis de reconhecer.
O primeiro sintoma é o uso de prompt batido, daqueles que aparecem em curso de IA por noventa e sete reais, ações de marketing para engajamento ou prompts de trends no Instagram. A resposta vem genérica, sem contexto, e mesmo assim a sensação de produtividade é tão forte que o usuário para por aí e posta no Instagram, dizendo aos colegas que está usando IA na clínica. Já usei muito e ainda utilizo dessa maneira para algumas coisas, mas sei que a IA não é só isso.
O segundo sintoma são aquelas ferramentas genéricas de CRM e automação, vendidas com promessas de “transformar sua clínica” ou “revolucionar seu escritório”. São plataformas que prometem “capturar leads” e organizar as postagens de Instagram, e em três meses você descobre que os leads não viraram clientes. Alguns marcavam consulta e não compareciam, alguns só perguntavam preço, trouxe movimento mas não trouxe resultado. Bom, até pode ajudar, não sou contra seu uso, mas pensar que a IA serve apenas disso é muito raso. E como você não teve resultado, contestou o método, mas aí te falaram que é porque sua secretária não respondia na hora, ou não seguia script de venda. E com isso vem o terceiro ponto.
O terceiro sintoma é o mais visível, porque atinge todo mundo: a praga dos chatbots de WhatsApp. A pessoa entra em contato para resolver uma dúvida ou até mesmo pedir um delivery de pizza e é recebida por um robô que pede para digitar 1, 2, 3. O robô oferece opções que não respondem ao que você quer resolver, aí tu manda uma nova mensagem, e lá vem a mesma frase enlatada do outro lado, e quando finalmente um humano acha tua mensagem já se foram quinze minutos e a sua paciência. Isso não é uso inteligente de IA. É terceirização da relação com o cliente para uma máquina que nunca foi treinada para resolver, foi treinada para filtrar.
Esses três sintomas tratam a IA como atalho para parecer moderno, e ao meu ver muitas vezes mais atrapalham do que ajudam. Quem trouxer de volta o contato humano vai estar à frente. A tecnologia, aqui, está como fachada de modernidade, não como ferramenta de trabalho para te devolver a humanidade.
A segunda armadilha é mais sutil e, no longo prazo, mais grave. É o que muito provavelmente vai levar à atrofia do pensar humano.
Aqui o usuário está, de verdade, usando a tecnologia para entregar mais rápido. O problema é que ele está terceirizando justamente as tarefas que o tornariam mais capaz com o tempo. O residente que pede para a IA escrever o relatório do paciente, valida sem ler, e na próxima vez que precisar pensar um caso complexo sozinho descobre que não construiu o repertório. O dentista que entrega a explicação do plano de tratamento para um vídeo genérico gerado por IA, e perde a chance de praticar a conversa real, de ler o corpo, de ajustar a linguagem para aquela pessoa. O advogado que pede para a IA redigir a petição inicial, assina sem revisar, e em três anos percebe que esqueceu como se constrói uma tese do zero.
Esses casos parecem inocentes no curto prazo e são destrutivos no longo. A maestria profissional é construída em milhares de interações que individualmente parecem chatas, e quando você terceiriza essas tarefas para uma máquina ganha tempo agora e perde músculo para depois. O sintoma aparece dois, três, cinco anos à frente, quando uma situação nova chega e você descobre que não tem mais o feeling que deveria ter acumulado.
A linha que separa a segunda armadilha do uso saudável de IA é fina e exige honestidade. A pergunta é direta: a tarefa que estou delegando para a máquina me tornaria melhor se eu a fizesse, ou só ocupa o meu dia sem me fazer melhor amanhã? Existe diferença real entre as duas, e cada profissional precisa traçar a linha para si.
A terceira via
A terceira forma é usar IA como ferramenta, como sempre se usou ferramenta na história das profissões. O estetoscópio liberou o médico para escutar o paciente sem precisar encostar o ouvido no peito. O computador liberou o advogado para pesquisar jurisprudência sem garimpar livros físicos. O escaneamento digital na Odontologia poupou tempo de vazamento de gesso, ajuda a rever o caso, e facilita o planejamento e a comunicação com o laboratório e demais áreas. Em todos esses casos, a tecnologia tomou para si uma tarefa e devolveu ao profissional o tempo e a atenção para outras tarefas, mais ricas, mais humanas, mais difíceis de automatizar.
A IA está nesse mesmo lugar, com uma escala diferente. As tarefas que ela pode absorver são mais numerosas, mais sofisticadas, mais abrangentes. Transcrição de consulta, organização de prontuário, rascunho de petição, primeira versão de uma análise contábil, geração de material educativo para o paciente, resumo de literatura recente, checagem de inconsistências em um contrato. Cada uma dessas coisas é algo que profissional sempre quis fazer melhor mas nunca teve tempo nem ferramenta, e a IA, bem usada, é o que devolve esse tempo.
Aqui está o ponto que separa a terceira via das duas armadilhas. A IA não está fazendo o trabalho do profissional, está fazendo o trabalho ao redor do trabalho. Está absorvendo o que sempre foi obstáculo para o que importa. O médico que ganha vinte minutos por consulta porque não está mais digitando o prontuário usa esses vinte minutos olhando para o paciente. O dentista que automatiza a tradução do plano de tratamento para a linguagem do paciente usa o tempo livre para verificar se a pessoa entendeu de verdade. O advogado que recebe a primeira versão da petição em dois minutos usa as próximas duas horas não para revisar palavra por palavra, mas para pensar a estratégia do caso.
A tecnologia é meio. O profissional é fim. A IA tira da frente o que não precisava estar ali, e devolve a pessoa para o lugar em que ela é insuperável.
Como aplicar isso, na prática
Para quem está olhando o panorama agora e tentando decidir o que vale a pena, existe uma régua simples. Antes de incorporar qualquer ferramenta de IA ao seu trabalho, faça uma pergunta: essa ferramenta, se funcionar como promete, libera tempo e atenção para eu fazer melhor o que já queria fazer, ou me obriga a ajustar o meu trabalho para que ela funcione? Ou ainda, está me dando tempo para pensar e executar melhor o meu trabalho ou ela está me substituindo?
Se as suas respostas forem “sim, libera tempo” e “sim, me dá tempo para pensar melhor”, vale experimentar. Mesmo que a ferramenta falhe, o desenho está certo, ela pode ser refinada ou trocada por outra parecida, e você não perde nada estrutural. Se as respostas forem as outras, provavelmente vai frustrar, e a frustração não vai estar na IA. Vai estar no que ela te obriga a se tornar para operar com ela. Toda vez que uma ferramenta exige que você modifique o seu próprio trabalho para alimentá-la, em algum nível você está virando funcionário dela. E pior, se ela consegue fazer o que você faz, ainda é tempo de se superar.
O que sobra para o humano
A IA está, sim, absorvendo tarefas em ritmo acelerado. Tarefas que há cinco anos exigiam horas humanas agora levam segundos, e isso vai continuar acontecendo, vai se acelerar. A pergunta que define a próxima década profissional não é se a IA vai assumir tarefas, ela vai. É o que cada profissional vai fazer com o tempo que vai sobrar.
Quem usar esse tempo para se aprofundar no que só humanos fazem bem vai prosperar. Pensar em situações novas. Decidir sob incerteza real. Conduzir conversas difíceis. Ler o emocional de quem está na frente. Construir confiança. Exercer julgamento clínico, jurídico, contábil, técnico em casos que não se encaixam nos padrões. Essas são as habilidades que tendem a se valorizar à medida que a IA absorve o que é padronizável, e elas só se desenvolvem com prática humana real, não com delegação para máquina.
Quem usar o tempo livre para fazer mais tarefas automatizáveis em volume maior vai descobrir, em algum ponto, que está competindo com a máquina no jogo da máquina. Nesse jogo a máquina ganha sempre.
A IA, bem usada, não substitui o profissional. Ela o devolve para si mesmo. Tira o profissional do papel de meio de produção, que sempre foi sufocante, e o coloca de volta no papel de ser pensante. Que é, afinal, para o que estudou e se formou.
Uma honestidade necessária
Escrevo isso como dentista que vive a clínica, e como fundador entusiasta de uma empresa de tecnologia voltada para saúde, que constrói ferramentas baseadas em IA. E tenho uma visão de que a tecnologia deve devolver o dentista para a conversa com o paciente. Quando construí o Nexo, uma ferramenta de comunicação clínica (que você pode conhecer por aqui) eu estava pensando em mim. Eu sempre gostei de montar apresentações bacanas para os pacientes entenderem o caso, mas isso me tomava tempo, tempo de clínica e tempo com a família. Eu não sou designer, sei o básico de Powerpoint, levava às vezes horas para montar uma apresentação. E então pensei: por que não “automatizar” e usar esse tempo planejando, conversando mais com o paciente? Esse é o uso da ferramenta como meio inteligente de ganhar tempo. E ao meu ver é isso que separa tecnologia que dura de tecnologia que vira fardo. Esse mesmo critério vale para qualquer ferramenta de IA que você esteja considerando, em qualquer área. Adote a que devolve você para o seu trabalho. Recuse a que coloca o seu trabalho a serviço dela.
Os temas tratados neste blog estão aprofundados no ebook O Dentista que Comunica, disponível aqui.